Ah e tal…


É politicamente correcto, hoje em dia, defender-se os exames nacionais do 9º ano. Não sei o quê exigência, não sei o quê avaliar escolas, professores e alunos, ah e tal reformar a educação.

Será assim?

Vejamos então:

1) São admitidos a exame alunos com negativa a Matemática e a Português, se a uma destas disciplinas se obtiver um nível 2. É isto exigência?

2) São admitidos a exame alunos com três níveis negativos podendo ser dois deles a Português e Matemática, desde que um deles seja nível 2. É isto exigência?

3) São admitidos a exame alunos com quatro níveis negativos sendo dois deles a Matemática e a Português, desde que nestas se obtenha nível 2. É isto exigência?

4) Nas outras disciplinas foram os alunos avaliados, nas suas escolas, na matéria do 7º ao 9º ano. Nas disciplinas de Matemática e Português vão ser avaliados só na matéria de 9º. É isto exigência?

5) Com que motivação vão os alunos que tendo apenas um nível negativo ou nenhum a exame sabendo que, por força da fórmula de cálculo do nível final, passarão sempre? É com este quadro motivacional que se avaliam conhecimentos?

6) Com que motivação vão os alunos que se encontram nas condições descritas nas alíneas de 1) a 3) a exame sabendo que, por força da mesma fórmula, só por milagre passarão? É com este quadro motivacional que se avaliam conhecimentos?

7) Este ano lectivo e por força duma má colocação de professores o quadro de docentes, nalgumas escolas, só ficou completo em Novembro. Alguns deles são de Matemática e de Português. É neste enquadramento que se avaliam professores? e alunos? e escolas?

8) Quando um professor falta, pela nossa legislação, só ao fim de um mês de ausência pode ser substituído. Há assim professores que por esse país fora faltaram duas e três semanas seguidas e não foram substituídos e faltaram, alguns deles, mais do que uma vez. É neste enquadramento que se avaliam professores? e alunos? e escolas?

9) As escolas só receberam uma indicação vaga da estrutura dos testes de Português e de Matemática e alguns exemplos de exercícios tirados das provas de aferição feitas pelo Ministério da Educação. Ora os exercícios das provas de aferição são de avaliação essencialmente conceptual necessariamente diferentes de uma avaliação de conhecimentos. É neste enquadramento que se avaliam professores? e alunos? e escolas?

Vamos assim avaliar alunos desmotivados, num quadro de laxismo e de desigualdades gritantes de escola para escola (por razões que não lhes são imputáveis). Por outras palavras, de um ponto de vista científico, estes exames não vão de facto avaliar conhecimentos mas sim estados de alma e desequilíbrios estruturais.

Não é portanto, para isto, necessário fazer exames. Os resultados são previsíveis: alunos com brio e de escolas que funcionam bem ou não atingidas por erros que lhes são alheias vão ter níveis elevados, alunos destas escolas mas sem brio vão ter níveis médios e os outros vão ter níveis negativos.

No entanto vão-se fazer e a que preço. Alguém já perguntou ao Ministério da Educação quanto custou este exame?

Sugere-se então o seguinte:

1) Intervenha-se socialmente nas áreas degradadas e reabilitem-se essas comunidades disfuncionais (são os técnicos de serviço social que o devem fazer e não as escolas). De nada serve ter aí uma escola sem esta intervenção.

2) Ataque-se o ensino infantil e o 1º ciclo de forma decisiva quer ao nível da formação dos docentes quer ao nível de uma poderosa dinamização das respectivas escolas. Estes níveis são os mais difíceis da docência. Uma escolaridade primária solidamente feita é quase tudo.

3) Mudem-se progressivamente os programas actuais para programas mais exigentes. No meu tempo, com sete anos de liceu, dava-se mais matéria e com maior profundidade do que, agora, com oito.

4) Estabilize-se o corpo docente das escolas.

5) Avaliem-se (mas avaliem-se mesmo) os docentes.

6) Altere-se a lei de forma a dar força aos professores e aos conselhos executivos contra o laxismo de alunos e de pais.

Cumpram-se estes pontos e façam-se então os exames nacionais para avaliar uma política educativa global e consistente e não, como agora, para constatar a desgraça.

João Rangel de Lima

          2005