“Imaginar para compreender” – Jean Piaget


O Governo decidiu atacar o problema do ensino da Matemática e…em boa-hora.Mas antes que comecem as asneiras convém reflectir sobre alguns pontos:

1. Atenção aos programas.
Por exemplo: incluir os numerais decimais no programa do 1º ciclo e só, depois, no 2º ciclo incluir o estudo das fracções e as operações no universo dos números fraccionários é, no mínimo, ilógico.
Aqui está uma excelente frente de combate.

2. O genial Jean Piaget que ainda espera ser compreendido/aplicado demonstrou, na sua investigação, que as estruturas cognitivas se vão transformando por assimilação e acomodação. A uma criança não se ensinam conceitos. Os conceitos (e neste particular os matemáticos) são assumidos pela criança através da sua actividade.
Este sempre foi o cavalo de batalha de Piaget.
É a criança que manipulando objectos ao acaso, ou através de situações montadas pelo adulto, se vai defrontando com factos que perturbam a sua estrutura e que, ao longo do tempo, a vão transformando (assimilação-acomodação) até que o conceito se corporiza. Como se imagina, isto envolve uma estrutura de sala e de aula que nada tem a ver com o que se passa em quase todas as escolas do mundo. As salas têm que ter muito material para que a criança o manipule e têm que ter educadores que percebam a teoria de Piaget e que, portanto, saibam como entabular , através do material, um diálogo provocador de perturbação das ditas estruturas, para provocar a tal transformação, rumo ao conceito.
É isto o que a Srª Ministra tem em mente?
Se é, magnífico. Mas, atenção, será, então, neste sentido que se tem de fazer a formação de professores anunciada pelo Secretário de Estado da Educação.
Tem o Senhor Secretário de Estado formadores à altura para esta formação?
Se não é, então, o melhor, é não fazer nada. Não deixa de ser curioso que se reconheça que se tenham que formar professores que já foram formados e…profissionalizados! Há algo aqui que me escapa.

3. Uma última frente de combate e que é sempre esquecida:
Que interessa a uma criança cujos Pais são tóxico-dependentes, que está mal nutrida e que vive no meio de violência, actividades que levam ao conceitode número ou que lhe proporcionam pistas de pesquisa para matematizar uma situação problemática?
Só com uma acção social (há uma cadeira nos cursos de serviço social chamada “serviço social de comunidades”) junto das comunidades disfuncionais se podem criar condições para que as crianças que lá habitem tenham vontade de aprender.
Diga-se de passagem que crianças que quase não vêem os Pais e cujo contacto com a realidade exterior se processa através dos “morangos com açúcar” também não terão qualquer condição para aprenderem o que quer que seja. Neste caso, francamente, não sei o que fazer. Se calhar, não há mesmo nada a fazer.

João Rangel de Lima

         2005