Marta Morais – uma imersão ousada na cultura japonesa

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Concluiu em 1996 a licenciatura em Antropologia Social e quis conhecer, mas conhecer mesmo, a cultura japonesa. Assim, munida de três bolsas (Fundação Oriente, Fundação Gulbenkian e Comissão para os Descobrimentos Portugueses), desembarcou em Osaka. De combóio e, de seguida, falando pouco,… muito pouco, japonês, dirigiu-se a um mosteiro Zen (a conselho do Mestre Hôgen) numa aldeia perto de Kioto… e aí viveu… seis meses… segundo regras muito exigentes… Levantar às cinco da manhã, entoar Sutras, meditação. Calor tórrido, no verão, frio gélido, no inverno. Uma interrupção para fazer um retiro num outro mosteiro, na montanha, e outra interrupção para ir à Coreia para poder renovar o visto. …Voltou a Portugal e entregou aos seus mecenas um relato de viagem e um filme, “Inútil – sobre a prática e o esquecimento”, em cuja montagem foi ajudada por João Nicolau.

Em 2000, tendo conseguido uma bolsa do Governo Japonês, ingressou durante um ano e meio na Universidade de Tóquio e depois na Universidade de Hitotsubashi onde fez o mestrado em língua, literatura e cultura japonesas. Estudou os contos do escritor Miyazawa Kenji (séc.XIX-XX) e as suas peculiares onomatopeias que, na língua japonesa, para além de expressarem sons e vozes, descrevem também estados de alma, sensações, movimentos, posturas…

Tem agora em mãos a sua tese de doutoramento que é um desafio difícil e aliciante. Marta pretende explorar as linhas de continuidade entre a prosa e a poesia de Kenji, juntando-se a este terreno de pesquisa o facto de não haver pontuação (incluindo parágrafos, mudança de linha) nos textos tradicionais japoneses e desta ter vindo, mais tarde, por influência da cultura e literatura ocidental traduzida que Kenji recebeu e usou… mas só nos textos passados a limpo. Tem estado assim a Marta a pesquisar os manuscritos de Kenji, a comparar os rascunhos e os textos passados a limpo, tentando assim perceber onde e como “pontuava” as suas histórias e poemas, tentando provar relações formais e rítmicas entre estes dois tipos de textos. Marta acredita que através de Kenji é possível conhecer as novas formas literárias e os desafios para a linguagem escrita moderna japonesa que então estavam a surgir…

Muito há a esperar desta incursão corajosa e solitária na difícil e hermética cultura japonesa desta nossa ex-aluna.

A Marta entrou nas Descobertas em 1982.