Quanto custa um equívoco


Quase toda a gente viu na televisão a reportagem, na RTP 1, sobre a indisciplina nas escolas. As pessoas ficaram atónitas ao verem alunos a agredir e a insultar professores, a atirar cadeiras e mesas pelo ar e, inclusivé, a assediar sexualmente os docentes.
Porque é que não se fez nada? Porque é que se deixaram as coisas chegar a este estado? Foram as perguntas que toda a gente fez. Concerteza que a mais importante pergunta também foi feita. O que fazer?
Pois o problema está justamente aqui. Até hoje todos os governos tentaram resolver através da Escola este problema. Ora, não se resolve pela Escola. Uma criança vinda de uma família disfuncional e ou vivendo num bairro disfuncional, assistindo diariamente, ao tráfico de droga, aos efeitos da droga, a bebedeiras, roubos, a violência pública ou privada, passando fome, não está nas melhores condições para ser metida num edifício durante 6 ou 7 horas a reflectir sobre a expansão portuguesa ou a aplicar o teorema de Pitágoras. Então o que faz? Agride e é agredido. Por mais programas especiais que se façam, por mais apoios que se dêem, por mais aulas dirigidas que se criem, por mais estruturas que se criem, o que atrás se disse manter-se-á.
A solução está no serviço social de comunidades. Os serviços sociais, se funcionam, enviam equipes de assistentes sociais aos bairros em causa, fazem o levantamento dos problemas, e, com a própria comunidade, vão lentamente transformando-a e às famílias de forma a que a mesma conquiste a sua auto estima adquirindo cidadania pela dignidade a que ascendem. É uma técnica velha como o serviço social. Então, sim, os jovens da comunidade começam a ter condições de aprender e então sim a Escola pode dar uma ajuda. O que se tem feito até agora e o que não se tem feito é pura perda de tempo… e de dinheiro.
Quanto dinheiro?
Deixem-me falar-vos da minha aventura no mundo da estatística nacional. Quis saber quanto custa um aluno no ensino público ao Estado Português (a todos nós). Posta a questão na net, apareceram 3 sites brasileiros com as continhas feitas…para o Brasil. Para Portugal, nada. Através do serviço de estatística do M. Educação fiz a pergunta. Estou há 2 semanas à espera que me digam quanto vai custar a consulta. Sendo assim, admitamos que um aluno custa ao Estado cerca de 300 € mensais que é a média das mensalidades das escolas privadas.
Quantos são os alunos que agem como se viu na reportagem? Aqui é que não há volta a dar-lhe. Ninguém sabe. Ninguém faz estatísticas destas.
Ousemos então um pouco.
Procurei, na net, a percentagem de alunos do 2º e 3º ciclos, noutros países, que agridem colegas e professores nas aulas. Só consegui este número na Polónia (19%) e tive muita dificuldade em obter este número nos Estados Unidos.. Só fornecem a percentagem de professores que apresentam queixa. Mesmo assim lá consegui descobrir um site que me forneceu a percentagem de “bullies” particularmente violentos que, entre outras coisas, agridem professores e colegas na sala de aula (também 19%).
O nº de alunos inscritos no 2º e 3º ciclos no continente em 2004/2005, ronda os 580.000. Aplicando a percentagem que referi à nossa população dará 110.200 alunos. Ninguém nos garante que os nossos alunos seguem a tendência estatística dos Estados Unidos e da Polónia e a nossa sensibilidade diz-nos que este número é exagerado para Portugal. Entretanto o Jornal de Notícias de 20 de Março de 2006, citando o Gabinete de Segurança do Ministério da Educação, indica que em 2004/2005 se registaram 1232 casos de ofensas à integridade física nas mais de 11.000 escolas públicas. Por outro lado, um estudo elaborado por Joana Barra da Costa (professora) e Sérgio de Araújo Soares que foi publicado em livro intitulado “O gang e a escola – Agressão e contra-agressão nas margens de Lisboa”, contém uma análise detalhada sobre situações de violência e indisciplina numa escola da Damaia e noutra da Trafaria. Apresenta, por exemplo, um quadro relativo ao ano lectivo 2000/01 que revela “ocorrências de agressão (312), vandalismo (135), armas brancas e de fogo (290), e telefonemas anónimos com ameaças (65), de acordo com fontes policiais. Portanto só casos de agressão temos 312 e só em duas escolas. Sabemos também pelo testemunho dos próprios professores da reportagem referida que estes casos têm vindo a aumentar, portanto, muito provavelmente, estes números de há 5 anos são piores agora.
Serve isto tudo para dizer que se considerarmos que são cerca de 1000 os alunos de todo o País que têm o comportamento focado no programa de televisão, estamos a pecar por defeito e não por excesso.
Multipliquemos os 1000 alunos pelos tais 300€ e por 10 meses (anuidade), dá 3 milhões de euros (cerca de 600.000 contos). Numa estimativa muito conservadora todos nós pagamos 3 milhões de euros por ano…para nada. Dito de outra forma, um luxuoso pavilhão poli desportivo por ano a menos ou uma excelente escola por ano a menos ou 3000 computadores por ano a menos ou 6000 retroprojectores a menos, ou… o financiamento do tal serviço social de comunidades…lembram-se?
Claro está que este é o custo directo. Sabemos que um só destes alunos paralisa uma turma e, portanto, todos os alunos desta terão insucesso mesmo que oficialmente tenham sucesso. Quer o leitor fazer um exercício de cálculo para ver o dinheiro que estamos a deitar fora…por ano?
Julho de 2006
João Rangel de Lima